UnschoolingLife

Dar a luz a nós mesmos, aos nossos filhos, e ao nosso mundo

Desenvolver o unschooling pode ser uma jornada solitária, doída e turbulenta. Pode parecer estranho para aqueles que são iniciantes ao conceito, escutar que criar uma vida baseada em liberdade, confiança e diversão, muitas vezes incluem horas de profunda angústia, vergonha e medo. Mesmo assim, a maioria dos unschoolers descrevem a sua transição ao unschooling como um processo muito dolorido e mesmo unschoolers mais experientes vivem momentos que estão longe de serem fáceis e sem preocupações. Mesmo com a visão de paz e alegria que o unschooling oferece, o esforço para chegar lá, pode, algumas vezes, ser sentido como um peso muito grande para se carregar. O que os unschoolers podem fazer para diminuir esses momentos de desconforto que parecem ser partes inerentes de fazer esse estilo de vida acontecer?

Uma forma de descrever a filosofia do unschooling é “viver como seres humanos já fossem perfeitos”. Este é um conceito radical, e para a maioria de nós, o oposto total do que nós sempre pensamos a respeito de nós mesmos, dos nossos filhos e da humanidade. A premissa inconsciente sobre seres humanos, expressada em nossas crenças coletivas, é que somos naturalmente maus, preguiçosos e burros. Essas crenças são responsáveis pela visão que a maioria das pessoas tem das crianças, pensando que elas devem ser forçadas a aprender, forçadas a serem produtivas e forçadas a serem boas. Curar este paradigma requer uma mudança profunda na mente de cada um. Deslocar­-se para um espaço de confiança e respeito pelo interior de nossos filhos (sem falar de nós mesmos, e o de todas as pessoas) é normalmente desconfortável, e freqüentemente leva mais tempo que nós gostaríamos para finalmente chegar a uma vida de paz tranquila e diversão.

Outra forma de descrever o unschooling é como uma exploração continua de quem somos e do que queremos. A resposta para estas perguntas é o que famílias que praticam o unschooling querem para seus filhos. Mas a maioria dos adultos não teve a oportunidade de descobrir isto para eles mesmos, e talvez podemos não estar familiarizados e confortáveis com o caminho para chegar desde aqui até lá. Eu imagino que, para pessoas que sempre foram desescolarizadas em um ambiente de amor e apoio, este autoconhecimento e aceitação são fáceis e naturais. Infelizmente, a maioria de nós não teve tal sorte, e temos que passar muitos anos concentrados em quem não somos, tentando ser “melhores”, sem muita atenção (se alguma) dada ao que realmente queremos ou quem somos.

Se quisermos virar este mundo invertido de volta para o lado correto para nossos filhos, temos que fazê­-lo para nós mesmos ao mesmo tempo. Esta jornada é a nossa jornada, nossa e deles. Como adultos e pais, continuar com a intenção de descobrir quem realmente somos e o que verdadeiramente queremos, requer um continuo processo emocional de descobrir a vergonha, medo e condenação que interiorizamos e vivemos por muito tempo. Não admira que a sociedade estacione crianças na escola, nos protegendo de enfrentar essa dura realidade de frente.

A maioria de nós acredita, por mais tempo do que conseguimos lembrar, que somos imperfeitos, que existem coisas que devemos mudar na gente, e que o objetivo da vida é melhorar. Quando éramos crianças, este programa de “melhora” era quase constantemente reforçado e monitorado por nossos pais, professores, pastores, e outras figuras de autoridade. Quando chegamos a fase adulta, a maioria de nós aceita esta versão da realidade, e se torna especialistas em constantemente julgar a nós mesmos e encontrar defeitos. Mesmo não sendo divertido para ninguém, a maioria das pessoas consegue viver todas suas vidas pensando que ele são fundamentalmente incompletos e defeituosos, e acredita que devem lutar para que sua vida tenha algum tipo de valor. Dar aos nossos filhos a liberdade e o encorajamento para serem eles mesmos irá iluminar nossa própria falta de liberdade e auto­-aceitação, o que pode nós deixar confusos e nos debatendo com o desconforto de tudo isso.

É comum interpretar a dor como sinal de alguma coisa está errado. Algumas vezes esta interpretação é útil, como quando alguém põe a mão no fogo. Por outro lado, existe a dor de trabalho de parto que, quando resistida, impede que um processo natural progrida. Parteiras apoiam e encorajam mulheres em trabalho de parto com suas dores, sabendo que fluir com a dor, em vez de batalhar contra ela, fará a mãe e o bebê a passar pela experiência com mais facilidade. Porque o unschooling é tão raro, nós não somos expostos, nem temos um conhecimento coletivo de que, algumas vezes, a maioria dos novos unschoolers vive um extremo desconforto, e também muitas dúvidas e medos que voltam a assombrá-­los periodicamente ao longo desta jornada. Muitos de nós tem que passar por esses períodos de dor sozinhos, sem parteiras para segurar nossas mãos.

No meu primeiro ano de unschooling, ainda que eu fosse familiar com homeschooling, eu não sabia que uma coisa chamada “unschooling” existia. Eu estava passando pelo que eu inicialmente chamei de minha “crise de meia-­idade” (mais tarde eu vi as coisas de modo diferente, e chamei de minha “emergência de meia-­idade”.) Em face de tudo que eu estava vivendo, eu decidi que eu e minhas duas filhas (que na época tinham 8 e 10 anos) iríamos tirar um ano da vida como nós conhecíamos, e viveríamos como se nós fossemos perfeitas, e descobriríamos quem realmente éramos. Nós chamamos isso de “Essential Self-School”. Foi excitante e aterrorizante, e fez aparecer muitos sentimentos difíceis em mim. Já que eu não tinha idéia de que unschooling existia na cabeça de ninguém que não a minha, nunca me ocorrerá procurar outros unschoolers para encorajamento, informação e apoio. Eu nem conhecia ninguém que fazia homeschooling. Nesta aventura, eu estava sozinha.

Mas, na verdade, não. Eu tinha passado minha vida me cercando, conscientemente, de amigas amorosas e cuidadosas, as quais me acompanham nos altos e baixos da vida. Eu chamo elas de minhas “lollies*” (elas são tão boas quanto doces), e elas me providenciaram uma grande e maravilhosa irmandade. Mesmo que elas não tenham pessoalmente se identificado com o “Essential Self School” que eu estava fazendo, elas me conheciam e me amavam, e sempre apoiaram minha jornada interior em busca de felicidade e paz. Eu pedi a essas mulheres que fossem minhas parteiras.

*lollies em inglês significa “pirulitos” e ao mesmo tempo soa como “leais”

No meu primeiro ano de unschooling, eu senti uma gama enorme de sentimentos difíceis :­ medo, tristeza, chateação, constrangimento, vergonha,­ etc. Eu chamava uma das minhas amigas e pedia para que elas me apoiassem (metafórica ou literalmente) enquanto eu chorava. Minhas amigas sabiam que eu estava no caminho certo para mim, e não questionavam minhas decisões ou pedidos de apoio. Elas me escutavam sem julgamento. Elas me lembravam de respirar. Elas me mostravam que me amavam. Sua presença me ajudava a estar mais em contato com quem eu era e o que eu queria.

Por meio desse processo bagunçado e imprevisível, muitas coisas mágicas aconteceram, mas o mais notável e excitante foi um surpreendente novo senso de diversão, liberdade e paz para mim e meus filhos. Eventualmente, quando eu estava descrevendo esta aventura a alguém que eu conheci no ônibus, ele me perguntou se nós éramos “unschoolers”. Eu nunca tinha escutado esta palavra antes, mas assim que eu a escutei, sabia que a resposta era sim.

Desde então, eu tenho visto muitas famílias que praticam o unschooling confirmar esse tipo de liberdade, amor e alegria que eles tem descoberto. Eu também ouvi muitos unschoolers expressar inúmeras formas de medo, duvida, pânico, raiva, julgamento, vergonha, desespero, preocupação e outros sentimentos difíceis. Eu agora vejo isso como uma parte inevitável do processo. Quando “se tornar um unschooler” é compreendido como “reavaliar tudo que você achava significar estar vivo,” fica mais fácil entender por que o que sentimos é, as vezes, tão impossível e opressor. Já que nós estamos na minoria, podemos fácil e frequentemente ter dúvidas sobre a sabedoria de confiar em seres humanos. Não apenas nos faltam modelos e sistemas de apoio, como nós podemos também acabar sendo os azarados recipientes do medo e julgamento de outras pessoas. Qualquer que seja

nosso pensamento negativo, existe sempre alguém “lá fora” que está mais do que feliz em validar e dar voz a eles. Para muitos unschoolers isso torna o processo ainda mais dolorido e isolante.

Assim como um nascimento, existem muitas coisas que podemos aprender sobre unschooling:­ novas idéias, sugestões práticas, filosofias históricas, e assim vai. Toda essa informação intelectual pode ajudar muito a mulher. Mas quando a dor verdadeira de parto aparece, os “fatos” da situação são de pouca ajuda quando comparados à parteira que nos olha nos olhos, limpa nossa testa, segura nossa mão, e nos guia a estar conscientes com a dor. As habilidades que ganhamos quando parimos nossos filhos podem ser usadas quando parimos espiritualmente o eu­-interior nosso e de nossos filhos. Quando precisamos, podemos segurar a mão de nossas parteiras, chorar nossas lágrimas e lembrar de respirar.

Ter tempo para respirar é fundamental como prática regular e medida de emergência. A respiração consciente nós traz alívio imediato físico e emocional. A partir deste lugar calmo e centrado, podemos nos reconectar novamente com nosso eu-­interior e nossos desejos profundos. Deste lugar podemos lembrar da perfeição nossa e de nossos filhos, não importa quão confusas e bagunçadas as outras circunstâncias pareçam estar.

Assim como ter me treinado a respirar mais conscientemente e liberar minha própria dor emocional, também achei útil me premiar mimando-­me nas coisas que me traziam prazer: uma soneca, um banho, um lanchinho favorito, yoga, ou sentar um pouco ao sol. Enquanto eu me tratei com amor e compaixão abundantes, eu me tornei melhor em confiar em meus filhos e tratá-­los da mesma forma. Seguindo meu coração e relaxando, eu criei um ambiente no qual era seguro para meus filhos se tornassem quem eles realmente eram.

Pelo motivo de que a maioria de nós está acostumada a pensar que nossos desejos e prazeres são suspeitos, este processo geralmente não acontece naturalmente. Assim como uma criança que está passando por um processo de deschooling pode alternar entre empanturrar­-se ou recursar algumas comidas e atividades, pais que estão deschooling normalmente descobrem que seus próprios instintos naturais foram muito danificados. Nós podemos não saber como nos mimar, podemos não saber o que realmente queremos.

Leva tempo. Dar a nós mesmo espaço para tropeçar nos ajudará a lembrar que nossos filhos precisam de tempo e espaço para tropeçar também, e podemos diminuir o desconforto aumentando o prazer nosso e dos nossos filhos o máximo possível pelo percurso.

Mais importante, sempre que você puder, ache pessoas para estar com você nesta jornada. Considere falar com um terapeuta, um conselheiro, um treinador que está numa continua jornada pessoal de cura, e que é confortável com o enfoque que uma vida no unschooling expressa. Algumas técnicas e praticas de aconselhamentos com colegas (por exemplo “Re­evaluation counseling”, e outros) podem ser uma forma maravilhosa e barata de aprender a se tornar fluentes com emoções difíceis, e podem te ajudar a construir uma rede de apoio e compaixão. Encontre pessoas que acredite em você:­ amigos, irmãos, parentes, ou outros pais que praticam unschooling. Diga a eles seu desejo de desescolarizar, e peça a eles que te apoiem pelas dificuldades . Não temos parteiras oficiais de unschooling, então nós precisamos treinar nossos time de apoio nós mesmos. Avise a eles que unschooling pode parecer difícil, mas isso, assim como o nascimento de um filho, é esperado. Não significa que você fez escolhas erradas. Simplesmente significa que você pegou um projeto muito grande, que vai demorar um tempo e que vai envolver alguma dor.

Não podemos confiar nos outros plenamente se não confiamos em nós mesmos. O processo de aprender a confiar em nós mesmos é uma estrada longa e turbulenta, e aqueles que escolhem atravessá-­la precisam de amor e cuidado pelo percurso. Esta delicadeza não apenas suaviza o caminho para o unschooling, como também leva todos mais longe pelo caminho em direção a um planeta mais feliz e em paz. Um mundo que honra, respeita e acredita em pessoas de todas as idades seria um mundo que valeria a pena viver, e eu apreciaria profundamente aqueles que estão dispostos a enfrentar a dor e a incerteza necessárias de parí-lo.

Traduzido por Ve Lacerdalife learning

Escrito por Amy

Este artigo foi publicado na revista Life Learning Magazine (edição Maio/Junho 2006)

 

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